“O QUE MUDA NO CALÇADO CLASSE I – NOVA NORMA ABNT NBR 16.603:2017”

Todos nós sabemos da importância da Energia elétrica nas nossas vidas, é a principal fonte de luz, força e calor utilizada no mundo contemporâneo, no entanto, também sabemos dos riscos que tanto a alta quanto a baixa tensão trazem aos trabalhadores que estão expostos á as atividades ligadas ao segmento elétrico.

Além do risco de choque elétrico, existem os riscos de arco elétrico e de chama repentina, o que nos faz ter atenção especial nos equipamentos utilizados para a proteção de membros inferiores no segmento elétrico. Assim, diferente de outras atividades menos abrasivas no contexto industrial, a geração, transmissão, distribuição e manutenção elétrica estão ligadas diretamente ao risco de morte, além de outros danos que podem ser causados aos trabalhadores, como:

  • Danos aos tecidos nervosos: Ao receber uma descarga elétrica, o corpo humano absorve uma grande quantidade de eletricidade que provoca queimaduras graves e causa danos aos tecidos nervosos, responsáveis por outros sistemas como o respiratório. O ferimento dos tecidos nervosos também gera contrações musculares que resultarão em lesões ou fraturas, desmaios e paradas respiratórias;
  • Alterações na frequência cardíaca: Os efeitos da eletricidade são variáveis para o coração. Dependendo da intensidade da corrente elétrica, poderá haver a aceleração dos batimentos cardíacos ou, em hipóteses de uma corrente de baixa frequência – mais perigosa para o corpo humano, é possível a ocorrência de arritmia e parada cardíaca com risco de vida;
  • Queimaduras graves: A energia elétrica libera parte de sua energia ao percorrer a pele. Se a resistência do tecido for alta, ela provoca queimaduras superficiais nas mãos, cabeça e pés – considerados pontos de entrada e saída da eletricidade – com a carbonização da derme. O resultado é a perda de líquido e sais com a lesão das fibras musculares que pode levar a problemas mais graves como insuficiência renal;
  • Efeitos psicológicos: Além dos danos físicos, os acidentes de trabalho com a eletricidade também causam prejuízos psicológicos ao trabalhador. Quando a corrente elétrica atravessa o cérebro, resulta na perda de memória a curto prazo, alterações da personalidade, irritabilidade e alterações no sono.

                                                                                                                                                                       (Fonte: INBEP – www.blog.inbep.com.br)

Dados ANEEL

Dados divulgados pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) mostram que nos últimos nove anos, chegou-se a ter picos anuais de mais de mais de 80 mortes por ano, considerando trabalhadores diretos e terceirizados do segmento elétrico, decorrentes de acidentes de trabalho com eletricidade. Com a evolução dos equipamentos de segurança e proteção e com a politização e aumento das práticas de segurança do trabalho nas empresas os números vem diminuindo, no entanto, qualquer acidente com energia elétrica costuma ser altamente invasivo. O gráfico abaixo demonstra o número global de acidentes no segmento:

                                                                                                                                                                              (Fonte:      ANEL – www2.aneel.gov.br)

Diante deste contexto de risco abrasivo do segmento, a adoção da nova norma ABNT NBR 16.603:2017 traz uma serie de mudanças importantes no calçado CLASSE I (Calçados fabricados em couros, têxteis, laminados sintéticos e outros materiais) – com o objetivo de melhorar e diferenciar o grau de proteção de calçados de segurança; de proteção; e ocupacionais para o segmento elétrico.

A norma ABNT NBR 16.603:2017 foi elaborada pelo Comitê Brasileiro de Equipamentos de Proteção Individual e pela Comissão de Estudo de Calçado de Uso Profissional, sendo que esta norma tem base na ASTM F 2413:2015 e cancela e substitui a ABNT NBR 12.576:1992.

Dentre as mudanças que esta norma trouxe, vamos pontuar algumas abaixo:

Resistência Elétrica:

A resistência elétrica do calçado isolante elétrico deve ser maior que 1000 M Ω.

Isolamento Elétrico (Resistência à passagem de corrente de fuga):

O calçado deve ser capaz de suportar a aplicação de 14.000 V (rms) em 60 Hz por 1 min, sendo que o valor da corrente de fuga não deve ser maior que 0,5 mA.

Importante: O valor de tensão de ensaio de 14.000 V não implica que o calçado possa ser utilizado nesta tensão. Sendo que a tensão de uso para o calçado especificado desta norma é de 500 V.

Resistência elétrica a úmido:

A nova norma traz o requisito de testes de ensaio a úmido, considerando a umidade relativa (23+- 2) °C e (85 +- 5) %, durante sete dias (168h), condição de acordo com a ABNT NBR ISO 20.344:2015, 5.10.

Costuras na região do cabedal:

A nova norma prevê que áreas do cabedal não possuam costuras ornamentais, sendo que toda a região do dorso até o ressalto deverá estar livre de costuras.

Isto inclui a questão solados blaqueados (costurados) na região frontal do cabedal, ou seja, qualquer tipo de costura na região marcada no desenho abaixo passa a ser proibida em calçados para atividade com risco de choque elétrico:

Componentes de metal – Calçado Isolante Elétrico

Diferente da norma anterior, na ABNT NBR 16.603:2017 não permite haver componentes metálicos no calçado, de nenhum tipo, como exemplo: alma de aço, ilhoses metálicos; fivelas metálicas; zíperes, pregos, rebites, etc.

Requisito obrigatório de resistências à penetração de água no cabedal (WRU):

Nesta norma o cabedal resistente à penetração de água é um requisito básico, ou seja, obrigatório. Importante notar que este requisito não aparecerá no Certificado de Aprovação para não confundir o usuário, pois o calçado é para utilização em ambiente seco.

O material hidrofugado ou hidrofóbico tende a absorver menos umidade ambiente, sendo assim, mais seguro em relação a matérias que tem muita permeabilidade.

Novas marcações – Requisitos obrigatórios:

Principais alterações em marcações: A norma prevê a introdução das simbologias SI; PI e OI, referindo-se respectivamente ás características abaixo:

Segurança isolante elétrico (SI);

Proteção isolante elétrico (PI);

Ocupacional isolante elétrico (OI).

Novas marcações – Indicação de resistência e símbolo elétrico:

Incluir desenho da simbologia de resistência ao choque elétrico na parte externa do calçado, sendo que assim os técnicos e engenheiros de segurança passam a enxergar visualmente e á distância se o eletricista está com o calçado correto. Também inclui a marcação de resistência do produto “500 v” e a palavra “seco”, indicando uso em ambiente livre de água e umidade, conforme figura abaixo:

Estas seriam as principais modificações de aplicações da nova norma ABNT NBR 16.603:2017, assim, com níveis de exigência mais elevados, ampliando o número de testes e melhorando a parte de engenharia do calçado, existirá um ganho de segurança para o usuário final, sendo que este calçado também terá uma resistência ao choque elétrico maior.

Desenhando uma linha do tempo no calçado ocupacional, de proteção e de segurança para risco de choque elétrico no país, teremos um cenário aonde o físico do produto vai mudar muito nos termos de construção e o calçado ocupacional, de proteção e de segurança para eletricista terá características específicas, sendo diferente do restante das outras atividades da indústria, ou seja, de acordo com o nível de risco da atividade.

A norma teve sua primeira edição em 26/05/2018 e já se encontra vigente no país como nova norma para calçado isolante elétrico.

Autor: Cleudir Ribeiro Supervisor de Laboratório Marluvas

Bibliografia / fontes:

Norma Brasileira – ABNT NBR ISO 16603 – Calçado Isolante Elétrico;

ANEEL – Pesquisa Geral dos Indicadores de Segurança do Trabalho

INBEP –Novas estatísticas de acidentes com eletricidade